quarta-feira, 3 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

«Não pense num Ferrari Amarelo»

Um paradoxo em quatro atos


I.PARTIR

«Nunca voltes ao lugar onde ja foste feliz». É o que se diz.

Alternativas (temporariamente) positivas:
Versão Comum: Fugir para bem longe (como fez a autora do livro Comer, Orar, Amar, depois do divórcio);
Versão Zen: Ficar onde se está (quando não se sabe o que fazer, o melhor é não fazer nada);
Versão Pop: Fazer de conta que não se passou nada e passar à frente (pode ser com um copo na frente, com comprimidos, como muito boa gente, e liftings sociais vários, do gadget digital ao «tanto faz, que é normal»)

II.SENTIR
O «vírus» quer-se em banho-maria (ou manel), mas é como a meteorologia. Um dia chove e nada fica como se queria.
A pedra no sapato volta a moer o calo e não há podologista que lhe valha. Não, o «plot» volta a circular na rede neuronal, hormonal e visceral. Tanto que até faz mal.

III.VOLTAR
O fim nunca é o fim. É um abandono temporário.
Um dia, num acaso qualquer ou coincidência improvável, alguém «demasiado familiar» reaparece do nada e abala as defesas que se julgavam «à prova de bala».
Mergulha-se numa foto, tropeça-se num mail, descobre-se com choque, durante uma conversa banal com um colega de trabalho que é, ou foi também, parte da história do tal Outro (o lugar que um dia habitámos e fomos - supomos - felizes).

IV.REFORMAR
O passado volta sempre, instala-se no presente, porque habita nos lugares mais escondidos em nós.
O problema não são, afinal, as emoções vulcânicas, mas o facto de não gostarmos delas.
Depois de tudo perdido, anestesiado, queimado, esquecido, resta o óbvio facto de que nada se perde para sempre.
Ninguem se deixa para sempre. Para trás ou para a frente, o filme é mesmo com a gente. Sem «final cuts» nem personagens ausentes. É quando percebemos que não deixamos nunca de ser protagonistas, mas podemos fazer qualquer coisa como ... guionistas.


quinta-feira, 2 de setembro de 2010

DOMINGO


«Tenha um dia descansado», diz a senhora que serve a bica. Num domingo, às duas da tarde, há gente que ainda dorme, após uma noite de paixão. Gente a fazer o «passeio dos tristes». Gente que aguarda a hora do futebol na tv. Gente a cumprir tarefas pendentes, desde idas ao supermercado a exercícios de corpo e mente, nem que seja de aspirador na mão.


Descansar é deixar de cansar-se. Dar sossego à compulsão de sair, de estar sempre em boa (ou má) companhia. Nos bairros do amor virtual, multiplicam-se as tentativas de encontros: mesmo que as probabilidades de ganhar sejam idênticas às do Euromilhões, uma imensa minoria de solitários urbanos testa regularmente a sua sorte.

Entregues às leis do acaso, procuram novos momentos, para afastar pensamentos. Sossegam a dor quando fazem amor. Fazem-no, mas nem sempre o sentem. E raramente o encontram. «Algumas pessoas não querem aproximar-se muito», sussurra uma jovem sozinha, à mesa de um bar (a cena é do do filme Anjos Caídos, do realizador chinês Wang Kar Wai). E pensa num homem.

«Quando se sabe muito acerca de uma pessoa, perde-se o interesse», confessa a jovem, para a câmara. Di-lo porque acredita ou porque recusa o sabor do desânimo? No mercado dos afectos, as ausências racionalizam-se, por assim doerem menos. No final do dia, despe-se a pele domingueira e fecham-se os olhos. Entra-se, finalmente, em modo off. «Amanhã é outro dia».

terça-feira, 8 de junho de 2010

O factor «Ex»

O factor «Ex»


by roadhouse blues (blog)


Pouco passava da meia-noite quando entrou em casa. Tomou um banho e enviou a ultima mensagem do dia ao homem com quem estivera a jantar. «Dorme bem, amor. Obrigada por seres quem és». O pior foi mesmo conseguir dormir. Agora sentia na pele as consequências de saber «toda a verdade» sobre o passado do outro.

Quando começaram a andar juntos fizeram um pacto: partilhariam uma política de transparência quanto a assuntos passados. Seria esse o garante da intimidade e aceitação mútua. As tão aguardadas «confissões» dele tiveram um sabor amargo. Por momentos, arrependeu-se de ter tido uma atitude tão «moderna», tão «mente aberta». Por momentos, desejou não ter sabido o quão rotineiras passaram a ser as sessões de ménage a trois que ele afirmava fazer habitualmente com a ex mulher.

Passaria bem sem ter conhecimento das qualidades que mais apreciava nas mulheres que foram um dia suas companheiras de viagem. Valeria a pena ter de ouvir coisas como «gosto de ti, porque não és melga nem ciumenta como a minha ex, que ainda hoje me telefonou»? Agarrada à almofada, o corpo aconchegado entre lençóis, sentiu os músculos a relaxar. Acabava de fazer a descoberta da noite.

«Talvez não seja assim tão saudável saber detalhes da biografia amorosa de quem amo; o passado infiltra-se à mesa e na cama, e ganha o estatuto de amante implacável.» Só então dirigiu os seus pensamentos para ele: era capaz de aceitá-la, sem se afectar com as digressões e devaneios dela com outros homens, em dias que já lá vão? Tomou um comprimido para a ansiedade e entregou-se, por fim, ao silêncio envolvente do sono.

Desafio:
Estará preparado (a) para «toda a verdade» sobre os (as) ex que existiram antes de si? Pense duas vezes antes de decidir fazer o raio X às «vidas passadas» de quem conhece há pouco tempo. Ainda que tal seja entendido como prova de confiança e amor, não deixa de ser factor de desconforto e desilusão. O pior que pode acontecer é ter de digerir a evidência de que afinal não se é o melhor, o mais competente, o único na vida de outro alguém.

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A Sombra

A Sombra




É a nossa mais fiel companheira e contudo pouco sabemos dela. A sombra exerce por isso um forte poder de atracção sobre nós. O filósofo Platão conhecia o poder dessa entidade «fantasma», alcunhada, com alguma propriedade, de «controladora». Na Alegoria da Caverna, o mestre da Antiguidade Clássica fala de prisioneiros que nunca saíram de uma gruta, vendo as sombras de homens no exterior, projectadas pelo fogo, na parede da caverna, e tomando-as por reais.

Quem nunca chega a Ver a essência das coisas – à luz do dia - permanece na ilusão sobre si e o mundo. Na escuridão, na cegueira. No crepúsculo, ficamos mais vulneráveis ao poder da sombra, como sugerem as histórias sobre vampiros, lobisomens e outras figuras cinzentas (agentes secretos, que lidam com coisas ocultas ou informações confidenciais, que não podem vir à superfície). Elas falam de coisas universais e humanas, que se passam «às escuras» e fora do controlo da mente consciente.

O cérebro humano processa 2,000,000 unidades de informação por segundo, mas boa parte desse material não está acessível (não apreendido, intuído). Desejos e medos, memórias, competências que aprendemos, crenças acerca de nós e do mundo, e padrões de comportamento são armazenados no «chip», e surgem, frequentemente, sob a forma de respostas automáticas (temo-las sem dar conta).

Há momentos em que essa sombra - sempre à espera de uma brecha, um ponto de fuga qualquer no sistema de defesas – ganha força e contornos diante de nós: assume o comando e não temos mão nela. O confronto enfurece e intimida, mas traz consigo a possibilidade de despertar. O médico suíço Carl Jung costumava aplicar um exercício nas suas aulas, que consistia em «conhecer a sombra». Os alunos eram convidados a pensar, durante alguns segundos, em alguém de quem não gostassem ou com quem não se dessem bem. De seguida, era-lhes pedido que fizessem uma lista de características desconfortáveis associadas a essa pessoa. Após esta tarefa, as pessoas liam em voz alta as suas anotações. No final, era-lhes dito que esse grupo de tópicos eram, nada mais, nada menos, que o retrato do «lado sombra» de cada um.

Aspectos que detestamos nos outros e nos tiram do sério são muitas vezes aqueles que não conseguimos assumir – ou negamos – em nós. Mas estão lá e são reconhecidos – e projectados – nos outros. Assim se explica, no ponto de vista Junguiano, o facto de manter, por exemplo, uma relação conflituosa ou insatisfatória com alguém, a coincidência de atrair sempre o mesmo tipo de parceiro, de chefe ou de situações problemáticas, quando isso se quer evitar a todo o custo.

Os protagonistas desses «infernos» espelham, afinal, coisas que, sendo também nossas, rejeitamos e «empurramos» para fora de portas, como se nunca nos tivessem pertencido. «O mal são os outros», «Eu sou bom, tu é que não me mereces, porque és mau (ou fraco, etc)», são apenas variações da dualidade humana, tão bem ilustrada na lenda clássica da época Vitoriana, Dr Jekyll & Hyde, ou na saga que envolve o sinistro Joker e o heróico Batman.

O lema «já que não o podes vencer, alia-te a ele» aplica-se ao inconsciente. Aceitar a sua própria sombra é reconhecer o poder (do inconsciente) que habita em nós. Conhecê-la, tratá-la por «tu», e descobrir os segredos que encerra, é a chave para a transformação pessoal.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Vertigem

 Numa manhã igual a tantas outras,
Acorda-se, ergue o corpo da cama e ele cede.
O mundo fica ao contrário.
É o cabo das tormentas, colocar a peça de vestuário.
Cabeça à roda, num dia normal,
Agarrar-se às rotinas parece agora o menor mal.

A mente comanda os gestos,
Não dando ouvidos aos sinais.
Passo a passo a hora chega,
É a vertigem e a desarmonia arterial.

Não está mal.
Para um dia normal.
Dizem que a vida é isso,
Uma vertigem, uma espiral.
Com pausas desprogramadas,
Que ditam 'stop' a mentes cansadas.

No corpo, um chip (ou mestre) perfeito,
Atenuam-se certezas, planos e urgências.
Por fim se pára e respira,
E a gente abre-se a outras frequências.
  





quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ser, conhecer-se

A essência do ser é conhecer-se. Evoluir, em vez de mudar.
Ser, para Rainer Maria Rilke, era ser poeta.

Cartas a Um Jovem Poeta (1903) - O seguinte excerto é uma excelente sugestão de leitura para os interessados em psicologia, jornalismo e criatividade.
E a todos o que se envolvem na busca da arte de bem viver.



Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: "Sou mesmo forçado a escrever?”

Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde.

Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. (...) relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas.

Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar.

Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida.

Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la.

Talvez venha a ser um artista. Aceite o destino e carregue-o com seu peso e grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Homens

De: Daniel Faria, Homens que São como Lugares Mal Situados


«Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Como são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs

Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados

Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas

Homens encarcerados abrindo-se com facas


Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas varandas voltados para a velhice
Muito danificados pelas intempéries

Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginando relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxaguar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior».

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Confiar

     (foto de: igotaphyaflyjones.wordpress.com/)

Benditos os que não confiam a vida a ninguém.
(Fernando Pessoa)

Envolvemo-nos. Sabemos, desde a primeira respiração, que nada será como antes.
Aprendemos a caminhar caíndo e, sem saber como, os pés palmilham caminhos seus, guiados por fantasias e sonhos, que guiam a idade adulta.
Envolvemo-nos, com pessoas, com causas, para sentir que pertencemos. Mas crescer é afastar-se. Por cada passo dado, há outro que fica para trás, é passado. O tempo traz perdas necessárias. Evoluir é, entre outras coisas, saber deixar ir (os filhos, depois de «criados», os amores, os rancores). Não é por acaso que na Psicologia se diz usam conceitos como «diferenciação».

Quanto mais crescemos, mais sabemos, pela experiência da viagem, que nos afastamos. De casa, de amigos, de empregos, de relacionamentos, de crenças. As células que não se diferenciam morrem. Estamos condenados a e-voluir (movimento no sentido externo aos limites conhecidos).  Há quem não suporte a sensação de des-envolver-se. Na viagem, a gente perde-se, assusta-se, quer voltar para trás, deitando mão a paleativos vários. Cigarros, copos, comprimidos, paixões súbitas, fórmulas de auto-ajuda. Tudo vale para adormecer a angústia e devolver a sensação de estar completo, envolvido, sem querer asas para voar.

Muitas vezes, «viver» pode querer dizer «não crescer». Resignar-se com a incomodidade de uma vida traçada a régua e esquadro, em que a alma inquieta quer voar e não pode. Os que ousam fazer a travessia sem guarda-costas, com confiança, conquistam a arte do desapego puro, agostiniano, impermeável ao pânico.
Desenvolvemo-nos quando somos capazes de nos vermos partir. O desapego, mais do que a vinculação, é a essencial à evolução.